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Onde há pertencimento, o esporte transforma

há 11 minutos
6 min de leitura

Com 22 modalidades nos Jogos Paralímpicos de Verão e diferentes classes esportivas, o paradesporto abre caminhos para a participação das pessoas com deficiência. Atletas com nanismo mostram que praticar esporte é mais do que competir: é ocupar espaços, desenvolver potencialidades e fazer parte



O esporte tem a capacidade de aproximar pessoas, fortalecer vínculos e transformar a maneira como cada indivíduo percebe o próprio corpo e suas possibilidades. Mais do que buscar resultados, recordes ou medalhas, praticar uma modalidade esportiva também significa conviver, aprender, construir autonomia e experimentar o pertencimento.


Esse direito é de todos. Pessoas com deficiência podem e devem praticar esportes, desde a infância, em ambientes escolares, projetos sociais, atividades recreativas, competições adaptadas e no alto rendimento. Para que isso aconteça, é necessário garantir acessibilidade, segurança, acompanhamento adequado e oportunidades reais de participação.

Incluir no esporte não é apenas permitir que uma pessoa com deficiência esteja presente. É assegurar que ela participe verdadeiramente, seja respeitada em suas características e encontre condições para desenvolver suas habilidades.


A força do esporte paralímpico


O Comitê Paralímpico Internacional reconhece atualmente 28 esportes paralímpicos: 22 de verão e seis de inverno. Nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024, foram disputadas 549 provas valendo medalhas nas 22 modalidades do programa de verão. Entre elas estão atletismo, badminton, halterofilismo, natação, bocha, ciclismo, judô, tênis de mesa, vôlei sentado, futebol de cegos e basquete em cadeira de rodas, entre outras.



O Brasil encerrou sua participação em Paris com a melhor campanha de sua história: foram 89 medalhas — 25 de ouro, 26 de prata e 38 de bronze — e o quinto lugar no quadro geral. O país conquistou pódios em 12 das 20 modalidades das quais participou, confirmando sua posição entre as maiores potências paralímpicas do mundo.



Esses números representam excelência esportiva, mas também revelam o que pode acontecer quando talento encontra investimento, treinamento, acessibilidade e oportunidade.


Como funcionam as categorias paralímpicas?


No esporte paralímpico, os atletas são organizados em classes esportivas. A classificação considera de que maneira uma deficiência elegível interfere na execução dos movimentos exigidos por determinada modalidade.


O sistema paralímpico reconhece dez tipos de deficiência elegíveis, entre eles a baixa estatura. Entretanto, ter um diagnóstico de nanismo não coloca automaticamente todos os atletas na mesma categoria. A avaliação é específica para cada esporte e considera critérios técnicos e funcionais.

No parabadminton, por exemplo, a classe SH6 é destinada a atletas com baixa estatura. No atletismo, as classes F40 e F41 são voltadas a atletas com baixa estatura que participam de provas de campo, como arremesso de peso, lançamento de disco e lançamento de dardo. A diferença entre elas considera critérios como altura corporal e proporcionalidade dos membros.



No halterofilismo paralímpico, atletas com diferentes deficiências físicas elegíveis competem em categorias definidas pelo peso corporal. Em outras modalidades, a classificação é funcional e pode variar conforme o impacto da deficiência sobre os movimentos utilizados na competição.


O objetivo não é dividir pessoas de acordo apenas com seus diagnósticos, mas reduzir a influência da deficiência sobre o resultado, permitindo que técnica, preparo, estratégia e desempenho esportivo tenham papel decisivo.


Pessoas com nanismo ocupando diferentes modalidades


A baixa estatura é reconhecida como deficiência elegível em diferentes modalidades paralímpicas. Pessoas com nanismo podem encontrar possibilidades no atletismo, badminton, halterofilismo, natação, tênis de mesa e em outros esportes, dependendo dos critérios de elegibilidade e da classificação funcional.


Também existem modalidades adaptadas que ainda não integram o programa dos Jogos Paralímpicos, mas cumprem um papel fundamental na inclusão e na formação de atletas. É o caso do paraskate e do futebol para pessoas com nanismo.


No Brasil, nomes como Theo Hulk e Arthur Isaac de Santana Pereira, conhecido como Pimentinha, vêm ganhando destaque e ampliando a representatividade das pessoas com nanismo no esporte.


Pimentinha é um dos talentos do paraskate nacional. Corajoso e determinado, conquistou o título de campeão brasileiro na categoria sub-16 e vem construindo sua trajetória sobre o skate, mostrando que crianças e adolescentes com nanismo também podem encontrar no esporte um espaço de identidade, liberdade e expressão.


Mesmo não fazendo parte atualmente do programa paralímpico, o paraskate representa uma importante possibilidade de participação esportiva. A história de Pimentinha também nos lembra que novos talentos precisam de incentivo, espaços acessíveis, formação profissional e competições que reconheçam suas características.


Theo Hulk igualmente contribui para dar visibilidade à presença das pessoas com nanismo no universo esportivo. Ao ocupar esses espaços e compartilhar sua relação com o esporte, ele ajuda outras crianças e famílias a perceberem que existem caminhos possíveis e que a deficiência não deve ser utilizada como justificativa para afastar alguém de uma atividade esportiva.


Isaac Nascimento: pertencimento também começa na escola


Outro jovem que vem se destacando é Isaac Nascimento, atleta de parabadminton. Aos 12 anos, Isaac, que nasceu com acondroplasia — a forma mais comum de nanismo —, competiu na categoria SH6 do Intercolegial.


Estudante do Centro Educacional Torres Filho, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, ele participou de uma edição que reuniu estudantes de 170 escolas em diferentes modalidades. A competição marcou o primeiro ano da inclusão do badminton e também das provas paralímpicas no evento.


A participação de Isaac representa uma conquista que vai além do resultado esportivo. Quando uma competição escolar inclui provas paralímpicas, ela comunica a todos os estudantes que as pessoas com deficiência também pertencem àquele espaço.


Isaac é o primeiro caso de acondroplasia em sua família. Sua mãe, Raquel Nascimento, relembra que a gestação transcorreu normalmente e que as ultrassonografias apontavam um crescimento adequado. Apenas no último exame, próximo ao parto, apareceu a indicação de que os ossos longos eram mais curtos.


“Com menos de um mês para ele nascer, eu não fazia ideia do que aquilo poderia significar”, recorda Raquel.

Anos depois, Isaac transforma sua trajetória em movimento. Sua presença nas quadras mostra a importância de a escola apresentar possibilidades, adaptar suas práticas e acreditar no potencial de cada estudante.


Amália Porfírio: força e dedicação no halterofilismo


A jovem Amália Luiza Porfírio Donato, de Bom Conselho, em Pernambuco, também vem construindo uma trajetória de conquistas no halterofilismo paralímpico.


Em 2026, Amália subiu ao pódio no Meeting Paralímpico Loterias Caixa, realizado em São Paulo, conquistando a medalha de prata. Seu percurso é marcado por força, disciplina, perseverança e pelo apoio das pessoas que acompanham sua formação esportiva.


Cada competição representa uma oportunidade de aperfeiçoamento, mas também de visibilidade. Ao ocupar o pódio, Amália mostra que meninas e mulheres com nanismo podem encontrar no esporte um espaço de potência, reconhecimento e projeção de futuro.


As trajetórias de Amália, Isaac, Pimentinha e Theo Hulk revelam uma nova geração que deseja mais do que ser autorizada a participar: ela quer treinar, competir, evoluir, vencer desafios e ser reconhecida por seu desempenho.


Mais do que competir, é fazer parte


Embora o esporte paralímpico brasileiro acumule resultados históricos, ainda existem barreiras que afastam muitas pessoas com deficiência da prática esportiva. Falta de acessibilidade, ausência de profissionais capacitados, escassez de projetos de iniciação, preconceito e baixa oferta de modalidades adaptadas continuam limitando oportunidades.


Essas barreiras aparecem principalmente na infância. Muitas crianças com deficiência ainda são dispensadas das aulas de Educação Física ou permanecem à margem das atividades. Em vez de adaptar a prática, algumas instituições simplesmente retiram a criança do jogo. Isso não é inclusão.


Uma escola verdadeiramente inclusiva pergunta: o que precisa ser modificado para que este estudante participe? Uma política esportiva comprometida com a equidade não espera que a pessoa com deficiência se adapte sozinha: ela transforma espaços, regras, equipamentos e atitudes.


O esporte não deve ser apresentado apenas como reabilitação, terapia ou história de superação. Pessoas com deficiência praticam esportes porque gostam, porque se divertem, porque desejam competir, porque têm talento ou simplesmente porque querem movimentar o corpo e conviver com outras pessoas.


Elas não precisam ser extraordinárias para conquistar esse direito.


Para a ANNABRA, defender a inclusão no esporte é defender o direito das pessoas com nanismo de ocupar quadras, pistas, piscinas, campos, academias e todos os espaços em que o corpo possa se expressar com liberdade e dignidade.


Porque, onde há acesso, surgem oportunidades.


Onde há incentivo, talentos se desenvolvem.


E onde há pertencimento, o esporte transforma.

Mais do que competir, é fazer parte.


 
 
 

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